Fotos

Jean-François Rauzier, fotógrafo francês, é um reconhecido artista do barroco digital. Sua obra evoca o cubismo, o pontilhismo ou o surrealismo em uma escrita original sobre os retratos das cidades que ele nos convida a visitar através do seu olhar estrangeiro. Suas fotografias, impressas em grandes formatos, intensificam o mundo sobre o qual ele pousa o olhar. Ele fabrica, no computador, uma hipercolagem que reúne, em cada uma de suas obras, uma quantidade considerável de imagens feitas durante suas viagens, jogando assim com um casamento feliz entre o macro e o micro, o virtual e o real, bem como o imaginário. Ele nos traz assim uma visão original e incomum das cidades que ele aborda e onde teve a felicidade de perder-se. Até o momento, Rauzier se debruçou essencialmente sobre a força da herança do mundo católico barroco. Seu projeto brasileiro, que começou em 2014, visa apresentar as diferentes capitais escolhidas ao longo da história do Brasil pelos diferentes representantes deste grande país. Depois de uma exposição sobre o Rio de Janeiro no Museu Histórico Nacional em 2015, e de uma sobre Brasília no Museu Nacional em abril de 2016, esta exposição no MAM de Salvador apresenta hoje a visão do artista sobre esta que foi a primeira capital do Brasil, de 1549 a 1763. Depois da exposição de Brasília, que foi um parêntese na obra de Jean-François Rauzier, este passeio baiano o conecta com seus primeiros trabalhos e suas pesquisas sobre nosso inconsciente coletivo. Em Salvador, ele foi fisgado pela atmosfera mística, por uma certa espiritualidade que nos remete aos primórdios da civilização judaico-cristã. O Rio de Janeiro foi tratado de maneira clássica, mostrando todas as suas diferentes facetas, históricas, modernas e cosmopolitas em um contexto excepcional. Brasília foi um retorno ao modernismo arquitetônico, celebrando a força e a luz de uma cidade nova, pensada no final dos anos 1950 por Oscar Niemeyer e Lucio Costa sob a impulsão do presidente Juscelino Kubitschek. A Salvador de Jean-François Rauzier propõe uma viagem mais íntima, ligada à presença do barroco católico português. Mas seu trabalho para realizar esta exposição no MAM de Salvador foi também para ele um exercício atordoante para chegar a expressar as superposições das outras culturas inseridas nesta cidade fascinante, repleta de igrejas e terreiros de candomblé. Rauzier recebeu tudo de uma vez. Ele gosta de chegar “virgem” aos locais que explora com suas milhares de fotografias. Ele não tinha conhecimentos precisos sobre as diferentes regiões que encontramos na Bahia. Com sua sensibilidade de artista, quis transcrever da melhor maneira o que descobriu. São Francisco é para ele uma das igrejas mais inacreditáveis que já encontrou. Ele foi extremamente inspirado ao tentar expressar esta exuberância luso-brasileira um pouco ingênua, na qual, desafiando todos os dogmas, os anjos têm sexo e as mulheres que os ladeiam têm seios e joias generosos. Ele achou, nessas esculturas em que às vezes aparecem elementos do candomblé, um delírio que ultrapassava o seu! Lembremos que o candomblé é uma das religiões afro-brasileiras praticadas no Brasil. Ele foi introduzido pelas múltiplas crenças africanas dos escravos trazidos entre 1549 e 1888. É uma mistura sutil de catolicismo, ritos indígenas e crenças africanas. Esta religião consiste em um culto dos orixás, os deuses do candomblé de origem totêmica e familiar. Baseado na crença de uma alma própria à natureza, cada orixá é associado a um elemento natural: água, floresta, fogo… O candomblé é hoje uma das crenças mais populares do Brasil, com cerca de 3 milhões de adeptos pertencentes a todos os estratos sociais. Em Salvador, encontram-se mais de 2 mil terreiros. Rauzier ficou deslumbrado por essas centenas de divindades, cujos nomes soam, para o ocidental, como a melodia de uma doce poesia. Exu (mensageiro entre os homens e as divindades), Ogum (orixá da agricultura, da caça e da guerra), Iemanjá (uma das mais conhecidas, deusa do mar, protege as famílias, as crianças e a pesca), Oxóssi, Iansã, Oxum, Oxalá, Xangô (orixá dos raios, do fogo, dos trovões e da justiça, associado, na religião católica, a São João Batista ou São Jerônimo)… Rauzier só podia ficar fascinado ao descobrir esta cultura. Ele apresenta nesta exposição diversas obras relacionadas a ela. Mas Salvador guarda também outras surpresas, e o sincretismo é onipresente. Em seu passeio curioso, Rauzier descobriu também, em um hotel-residência próximo da igreja de São Francisco, uma mikvé, banho coletivo utilizado nos ritos de purificação do judaísmo. É interessante notar que, com esta exposição, Rauzier encerra um ciclo pessoal. Nos anos 1990, realizou desenhos impulsivos, em escrita automática, muito impregnados da arte clássica ocidental, essencialmente religiosa. E que ele fotografou em seguida. Para fazer estas imagens de Salvador, Rauzier superimpôs várias imagens e desenhos, especialmente fotografias de igrejas e desenhos de orixás. Vieram-lhe então à memória esses grafites que mencionamos. Assim, por exemplo, a imagem de um Jesus Cristo baiano lhe lembrou formas que ele havia gravado na parede de uma fábrica abandonada em Paris. Ele havia feito a restituição primitiva de um ícone ortodoxo encontrado em sua infância. Por um curioso efeito bumerangue, um afortunado fenômeno impulsionador de uma impressão de reminiscência, Salvador o reenvia assim às origens de sua obra. Nas fotografias de Rauzier, o espectador é convidado a uma caça aos detalhes e, se ele vê tudo ao mesmo tempo, com todos os elementos da memória do sujeito abordado entregues numa única imagem, ele deve também se prestar ao jogo paciente e atento da reconstituição que lhe é proposta. O artista sabe multiplicar os efeitos de ilusão. Ao utilizar as possibilidades do digital, suas fotografias “espetáculo” associam as perspectivas de suas composições ao jogo de luz e de sombra para obter um novo tipo de realismo. Sua excentricidade joga com o inesperado e visa suscitar a emoção. Seu estilo estruturado joga abundantemente com o fantástico, bem como com a simetria, para prestar homenagem ao patrimônio das cidades onde ele fixa sua escolha. Ele recria assim estas inacreditáveis arquiteturas imaginárias, jogando com a busca do efeito mais inesperado e às vezes mais teatral. São Francisco, Rosário, Pelourinho, Nossa Senhora do Bonfim… Tudo terá conspirado para criar esta vertigem baiana única que nos é oferecida hoje no MAM.

Marc Pottier – Curador

Santos, 2016, 150 x 90 cm

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Pelô, 2016, 180 x 300 cm

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Nossa Senhora, 2016, 150 x 90 cm

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Oxóssi, 2016, 150 x 90 cm

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Obaluayê, 2016, 150 x 90 cm

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Mikvé, 2016, 150 x 90 cm

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Do Carmo, 2016, 150 x 90 cm

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Cidade baixa, 2016, 180 x 300 cm

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Babel 26 – Igrejas, 2016, 170 x 100 cm.jpg

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Saludo, 2016, 150 x 90 cm

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Azul, 2016, 150 x 250 cm

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Pentáptico. Igreja São Francisco, 2016, 250 x 750 cm

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Rosário, 2016, 200 x 120 cm

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Xangô, 2016, 150 x 90 cm

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Restrospectiva – Brasília, 2015, 180 x 300 cm

Símbolos da Praça dos Três Poderes e do JK, em Brasília é um amplo espaço aberto entre os três edifícios monumentais que representam os três poderes da República: o Palácio do Planalto(Executivo), o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) e o Congresso Nacional (Legislativo). Como em quase todos os logradouros da cidade, a parte urbanística foi idealizada por Lúcio Costa e as construções foram projetadas por Oscar Niemeyer.

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Restrospectiva – Cúpula, 2015, 120 x 120 cm

Cúpula 120x120cm 2015 Museu Nacional do Conjunto Cultural da República O museu, que tem a forma de cúpula, e a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola foram concebidos pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer e foram inaugurados no dia 15 de dezembro de 2006, no dia em que o arquiteto celebrou os seus 99 anos de idade. O museu tem uma área de 14,5 mil metros quadrados e foi inaugurado com uma exposição sobre a obra de Niemeyer: « Niemeyer & Niemeyer e Brasília – Património da Humanidade ». Localizado na Esplanada dos Ministérios.

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Restrospectiva – Silêncio, 2015, 120 x 120 cm

Silêncio 120x120cm 2015 A beleza da Capela Nossa Senhora da Conceição, localizada no Palácio da Alvorada, tem o toque de um dos principais artistas do Brasil, Athos Bulcão. A residência presidencial, além de rica em poder, carrega a beleza das formas geométricas e a vida das cores da arte do professor. Bem tombado pelo patrimônio federal, a obra de Athos Bulcão está presente na porta, nos objetos litúrgicos e no teto do projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Como o próprio professor disse, em 1998, “a Capela do Palácio da Alvorada inclui a pintura do teto, que é de 1959, depois inclui o desenho dos castiçais e demais objetos de culto”.

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Restrospectiva – Selarón 150 x 250cm

Olá, amigo Selarón, guardião dos intermináveis caminhos entre a Lapa e Santa Teresa, que coleta e organiza os milhares de azulejos. Esta tentativa obsessiva de conservação se encontra em evidente ressonância com minha hiperfotografia.

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Restrospectiva – Gabinete 100 x 150cm

Em 2015, o Real Gabinete Português de Leitura está a completar 178 anos de existência. É a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822. A sua sede, construída em estilo neomanuelino e que foi inaugurada pela Princesa Isabel em 1887, guarda cerca de 350.000 volumes (milhares de obras raras). Esse acervo maravilhoso está disponível a qualquer um do povo, pois o Real Gabinete é uma biblioteca pública. O Real Gabinete funciona como centro de estudos e um polo de pesquisas literárias, dirigido e freqüentado por professores universitários. Entre as obras raras do Real Gabinete figura um exemplar da edição princeps de “Os Lusíadas”, de 1572. Também possui em seu espólio o manuscrito do Amor de Perdição, obra do escritor português Camilo Castelo Branco.

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Restrospectiva – Joia Memória

Preciosidade arquitetural da grande época imperial portuguesa, o Automóvel Clube inscreve na pedra a pompa esquecida do império colonial português. Esta velha senhora nostálgica, enfeitada com uma máscara desencantada, persiste e ainda hoje brilha como fogo. Embaixo da anágua feita de uma glória inconsciente, o Rio cresceu.

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